segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Virgo, Volante de Aluguel: Parte 2

Leia a primeira parte aqui: Virgo: Volante de Aluguel 1
Quando começou a anoitecer e o calor arrefeceu levemente, respirar não era mais um ato de bravura e Virgo se colocou a caminho. Eram cerca de 3 quilômetros para sudoeste indo do Posto de Areia. Com faróis desligados e chegando com o final de claridade do dia, ela deveria conseguir avistar o prédio e, com alguma sorte, não ser vista.

Mexer com marimbondos tinha seus problemas. Se eles percebessem o furto de alguns galões antes de ela dar o fora do alcance deles, estaria em péssimos lençóis. Era preciso chegar perto, encher alguns galões que conseguisse e sair dali antes de chamar a atenção de uma patrulinha enxerida.

Por mais forte que seus braços fossem (Você não parece uma mocinha" mamãe dizia), fazer tudo isso seria cansativo, e algumas viagens seriam necessárias. Cada galão com 5 litros, 10 litros por viagem, 40 litros para o tanque (mais um para a reserva, mas esse não valia o risco), quatro viagens.

O tempo de cada ida era uma incógnita. Virgo não sabia se encontraria uma torneira ou tanque facilmente na refinaria, se teria de vampirizar o tanque de algum carro dando bobeira ou se acharia alguma bomba. Não sabia nem se encontraria algum local seguro para pegar combustível e todo o esforço poderia ser em vão. Se fosse o caso, restaria a ela voltar comk o pouco de combustível que tinha e passar alguns dias dormindo no carro até ter outra solução, mas certamente perdendo o dinheiro da entrega ou recebendo muito menos pelo atraso.

Com a Máquina quase em ponto morto e na banguela ("Na bengala" como a irma dizia quando era criança) desceu até o leito seco de um rio. Aquilo era um canion, atualmente, e poderia fica ali por horas se deixa-se o carro no lugar certo. Hora de pegar a mangueira, dois galões e partir para fazer justiça agrária.

A noite estava quente, como naquela época costumava ser. Sempre tinha ouvido que desertos eram frios de noite, mas pelo visto o cangaço seguia sua própria lógica pós-apocalíptica de vez em quando. Os mosquitos não estavam incomodando e fora alguma cucaracha mutante, não deveria ter maiores problemas.

Depois de alguns minutos de caminhada viu as luzes atrás de um morro. Era um galpão de bom tamanho, possivelmente uma estufa com pés de cana-de-açúcar transgênico que os Refineiros tanto amavam. Bando de caipiras do inferno.

Tinha saído com um certa vez, Ele bebia preciosos copos de cachaça que valiam mais do que ele tinha na cabeça. Acabou bebendo além da conta aquele dia, sinal de que ela também nem sempre tinha uma cabeça assim, tão privilegiada, e fez um sexo meio sem-graça com o sujeito. no fim, ficou com uma ressaca monstruosa, suspeita (felizmente não-confirmada) de herpes do agreste, e nenhuma aspirina de reserva. Além de descobrir que pinga lhe propiciava uma deliciosa enxaqueca, ela guardou na memória a dica de nunca mais sair com um imbecil daqueles. Pena, alguns eram até bonitinhos.

Enfim, enquanto pensava sobre seus descaminhos amorosos, Virgo, a "nem tão virgem assim", chegou perto o suficiente do prédio para ter de se abaixar. O galpão da refinaria era bem guardado, com uma cerca e patrulhas que passavam de vez em quando. A boa noticia é que eles não esperavam que alguém fosse imbecil o suficiente para se aproximar de um prédio guardado pelos paramilitares Cacheiros. A má notícia é que ela era um bocado imbecil e ia tentar algo assim de qualquer forma.

A piada corrente era chamar os guardas de refinaria de "cachaceiros". Mas, ela desconfiava, quem precisava estar sob efeito do álcool para fazer algo assim eram os invasores. Chega. Melhor parar de pensar negativamente. Ou então era mais correto ir embora agora e deixar as coisas acontecerem.

Com as mãos cavou um ponto que considerou seguro por debaixo da cerca. Haviam alguns holofotes, aqui e ali, mas os guardas estavam com o mesmo calor que ela, e passavam as luzes para lá e para cá com certa preguiça. Ela conseguiria ir sem maiores dificuldades se não chamasse atenção.

Ao se aproximar de um prédio secundário do que parecia uma garagem, Virgo encontrou o que queria: algumas caminhonetes paradas, de onde conseguiria pegar combustível com sua mangueira. Algum guarda certamente apareceria ali em algum momento, mas se trabalha-se direito, mesmo com um guarda a poucos metros, ela acabaria o serviço e sairia ilesa.

Encontrou o tanque de um furgão, abriu a tampa com uma chave de fenda, chupou o combustível e deixou as leis da física trabalharem, enchendo cada um dos galões. Um pouco de cheiro de álcool poderiam ser indicio de algo, mas duvidava que, tão perto da refinaria, isso seria um problema.

Quando acabou, fechou as tampas do carro e do galão e ergueu os galões. Quer seja por causa do peso, por ter inalado quimica demais ou simplesmente pelo cansaço, o fato é que Virgo perdeu o equilíbrio e bateu, levemente, na lateral do carro.

Uma voz feminina imediatamente pareceu despertar da traseira.

-Quem está aí?  - disse em voz meio rouca, como se não falasse há muito tempo. - Quem está aí? repetiu. E a desgraçada começou a chutar o lado de dentro e a fazer barulho. Urros e brulho não era o que Virgo desejava naquele momento.

-Shh, fica quieta, seja quem for, ou estamos ferradas, aqui.
-A voz se calou por um instante, como se pensasse a respeito. Então perguntou, em voz mais baixa - Está presa também?.
-Não. Eu vim por outra razão, mas fica quieta, porra! - foi difícil sussurrar um palavrão naquelas condições.
-Me tira daqui. Estou desesperada. Por favor.
POP, pensou Virgo. Problema de outra pessoa, não valia a pena se meter.
-Faz assim, vou voltar em 20 minutos e te tiro daí- disse, se sentindo mal pela mentira.
-Quer saber, acho que não tira não. Me livra dessa ou vou fazer tanto barulho que vão pegar você e quem estiver contigo em flagra.
-Caralho, você é louca. Vou embora- Disse Virgo e começou a se afastar.
Antes de dar 2 passos a maluca começou a gritar dentro do carro e chutar a lataria. Péssima forma de se passar incógnita.
-Silencio, merda-caralho, ok, te tiro dai agora, mas para senão a gente está ferrada. Quieta. - E começou imediatamente a trabalhar na fechadura.

Aparentemente, a prisioneira conseguia ouvir a pilota trabalhando porque ficou quieta todos os longos minutos que aquilo demorou. Quando "clique" esperado finalmente anunciou o fim do arrombamento delicado, a porta traseira finalmente se abriu, Virgo foi surpreendida.

Em primeiro, veio a imagem de uma moça jovem, mais ou menos da idade dela,  com uma aparência que era de dar pena. Ou seria, se não estivesse tão puta da vida ainda com a chantagista. Ela tinha a pele morena e cabelos claros, provavelmente não naturais, dada as raízes escurecidas, mas parecia bem machucada e suja.

A seguir veio o cheiro, Algo indescritivelmente ruim, com o cheiro de urina e suor de vários dias. A garota estava com as mãos amarradas para a frente e cambaleou para a frente. Se esperava um abraço da salvadora, ficou no vácuo e despencou pesadamente no chão.

Virgo a ergueu. com os braços bem estendidos o mais longe possível da criatura. - Você está bem? Qual seu nome?- perguntou.
-Flávia Maria, me ajuda a sair daqui. Esses putos me prenderam há nem sei mais quantos dias.
-Fuuuu..., olha eu tiro você daqui, mas não posso levar um peso morto. Consegue andar?
-Acho que sim, preciso de uns minutos. - disse, movendo as pernas como se com câimbra ou formigamento.
-O trato é o seguinte: vou encher aqueles dois galões ali no canto com combustível. Com esses que ja enchi, isso é o suficiente pra sair daqui com lucro, o que significa viva. Você paga sua passagem pra fora do inferno levando eles até o carro. Deixe pelo caminho e fica na areia. Carrega e tem carona para fora. Feito?
-...feito, eu acho. 10, 20 litros não é tanto. Não sou nenhuma inútil. Me desamarra enquanto espera e a gente se manda.

Com Maria desamarrada, e os dois galões sendo enchidos de outro tanque - melhor o furto passar desapercebido - Virgo procurou um banheiro na garagem. no escuro achou um desodorante spray (aonde os Refineiros achavam essas coisas, hoje em dia) e gastou metade em cima da fedidinha.

A garota tossiu disse - Yach. Tá bom, entendi o recado. par de espirrar essa porcaria em mim. Não estou assim porque eu quero, bosta.

Virgo deu um sorriso vingativo e pensou - Essa é pela chantagem barata, vaca!- mas acabou por aí. Entendia o que a outra tinha passado e não pretendia prolongar a briga. Não era hora e nem necessário.

Trocou o galão e olhou para o pátio e o prédio central. Até aqui, apesar de tudo, estava tudo bem. Checou os galões que tinha enchido antes, fechou os novos, que seriam de Maria, e o tanque do carro. A sua carona deveria estar com fome, mas isso não era hora para piquenique.

Do lado de fora um carro saiu do prédio e passou pelo portão, lembrando Virgo que ainda tinham com o que se preocupar, já que ainda era começo da noite e os Refineiros do prédio estavam de serviço. Pelo menos alguns deles deveria estar. Olhando para Maria, fizeram sinal de que era hora de se mandarem. Em silêncio. A outra parecia entender isso. Menos mal. Ela não era uma mutante descerebrada.

E foi nessa hora que ouviram um assobio, vindo de uma porta lateral da garagem. Aparentemente, a sorte de Virgo durava menos que o tanque da Máquina.

(continua)

5 comentários:

  1. Sensacional, Brega. Material intrigante. Não vejo a hora de ler a continuação.

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  2. Até segunda que vem coloco a terceira parte.

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  3. Até segunda que vem coloco a terceira parte.

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  4. Nossa.. ficou melhor que a primeira parte..

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